Com impasse ambiental, Fernando de Noronha prepara estudo que revê capacidade de turistas e cruzeiros


A decisão de liberar regularmente grandes embarcações também está em discussão interna entre o Ministério do Turismo e do Meio Ambiente. Praia da Conceição tem vista privilegiada para o Morro do Muco, em Fernando de Noronha
Fábio Tito/G1
O estudo de capacidade de ocupação de Fernando de Noronha será refeito pela administração da ilha e pelo governo de Pernambuco. Eles já abriram processo de licitação para escolha da empresa responsável.
O administrador de Noronha disse ao G1 que, com isso, será possível verificar se os limites turísticos atuais, baseados em dados de 15 anos atrás, ainda são coerentes com a realidade ou precisam aumentar ou diminuir.
E também servirá para avaliar a possibilidade de receber mais cruzeiros, um assunto que também tem sido discutido, internamente, nos ministérios do Turismo e do Meio Ambiente.
Navios barrados
Atualmente, o número máximo de turistas que podem chegar à ilha de avião é de 246 por dia.
A chegada em cruzeiros não tem um limite diário, mas apenas três foram autorizados desde 2018. A administração de Noronha não informou quantos turistas estavam a bordo em cada um, mas disse que eram embarcações internacionais com poucos passageiros.
Em março deste ano, um navio tentou parar na ilha, mas, segundo a administração local, não foi liberado por conta do elevado número de turistas previsto para transportar. A empresa responsável previa entre 340 e 600 lugares.
Aumentar esse número perpassa justamente pela capacidade de carga que entrará em revisão.
“Se aumentamos a chegada de turistas pelo mar, vamos ter que diminuir por terra e pelo ar porque o limite ambiental não está em jogo. Noronha precisa se manter sustentável. Aumentar o número de cruzeiros é aceitável desde que sejam seguidas da forma mais estrita as regras ambientais”, diz o administrador de Fernando de Noronha, Guilherme Rocha.
Os cruzeiros precisam ficar num ponto afastado da costa e contam com um barco de transporte até o porto, onde os turistas passam por controle migratório e fazem o pagamento de taxas.
Passeio de barco permite conhecer melhor as diversas ilhas secundárias ao redor de Fernando de Noronha
Fábio Tito/G1
Desafio para a infraestrutura
A entrada de turistas e a autorização de grandes embarcações esbarram no impasse ambiental por qual passa a ilha: a quantidade atual, ainda que limitada, tem colocado em teste a infraestrutura e a preservação de Noronha.
Mesmo com a restrição e a cobrança de taxas, em 2018 foram recebidos mais de 100 mil turistas, um recorde.
O plano de manejo – documento obrigatório em unidades de conservação e que serve para estabelecer normas de uso da ilha – prevê uma média de 89 mil visitantes por ano.
Sem prazo para ser concluído, o estudo técnico do governo de Pernambuco e da administração de Noronha levará em conta fatores da infraestrutura, como água, energia elétrica e tratamento de esgoto.
No ritmo atual, o fornecimento de água foi um problema em julho deste ano. Em todos os bairros houve relatos de problemas com moradores passando mais de 10 dias sem receber água por causa de vazamentos em diversos pontos da rede de distribuição.
Esgoto é outro entrave: apenas 50% das casas de Noronha têm coleta de esgoto. A água é do dessalinizador local ou da chuva, e, com frequência, o racionamento é necessário.
Dois Irmãos são ponto turístico importante à beira da Cacimba do Padre, em Fernando de Noronha
Fábio Tito/G1
Voos noturnos e taxas
O governo federal estuda a liberação de voos noturnos comerciais na ilha. “Está em estudo essa liberação e, em 120 dias, teremos resposta. O assunto foi pauta de nossas reuniões e, com certeza, teremos uma boa notícia para todos os operadores turísticos de Noronha”, afirmou o presidente da Empresa Brasileira de Turismo (Embartur), Gilson Neto, em julho passado.
Ele e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, visitaram a ilha depois que o presidente Jair Bolsonaro chamou de “um roubo” a taxa cobrada para visitar Fernando de Noronha.
São duas: uma estadual e outra federal. Elas somam R$ 106 para brasileiros e R$ 212 para estrangeiros.
Na época, o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), que monitora o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, negou a liberação de voos noturnos, alegando que a iluminação à noite é prejudicial para as aves e também que ilha já extrapolou a capacidade limite de visitação.
O ICMBio emitiu uma licença ambiental para a obra que vai permitir o pouso e decolagem de aeronaves à noite em Noronha, mas a autorização é apenas para voos noturnos de emergência.
Nesta quinta-feira (22), a Justiça do Distrito Federal suspendeu a portaria que determinou a transferência do oceanógrafo José Martins da Silva Júnior, analista ambiental em Fernando de Noronha, para o Sertão de Pernambuco. A decisão, anunciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), foi tomada contra a vontade do servidor. No arquipélago, ele desenvolve um projeto de preservação de golfinhos.
No instituto, ele tem questionado o crescimento do turismo em Fernando de Noronha. O ambientalista também é contra a aprovação de novos empreendimentos turísticos de grande porte na ilha.

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