O 'jeitinho italiano' para driblar quarentena e bloqueios contra o coronavírus


Enquanto país amplia cuidados para conter a pandemia do covid-19, Ferrari não fecha fábrica, mas trabalha com equipe reduzida, comerciantes apostam em delivery e jovens buscam parques para escapar do tédio. Enquanto país amplia cuidados para conter o coronavírus, comerciantes apostam em delivery e comida ‘para viagem’, e jovens buscam parques para fugir do tédio
Yara Nardi/Reuters
A quarentena na Itália tem gente na rua e comerciante driblando as restrições cada vez mais severas impostas pelo governo nos últimos dias para conter o avanço do novo coronavírus.
Além do uso de luvas e máscaras ou cachecol tapando boca e nariz, o “jeitinho” italiano para escapar da quarentena inclui idas a parques e venda de comida “para viagem” e por aplicativo de entrega.
Cafés que deveriam estar fechados deixaram de vender bebidas e oferecem apenas comida. Há ainda cidades onde algumas lojas ignoram as restrições e seguem abertas.
Até a fábrica da Ferrari anunciou, segundo o jornal italiano “La Repubblica”, que não vai fechar, apesar de garantir medidas rigorosas de prevenção e equipe mínima trabalhando na cidade de Maranello.
Até esta sexta-feira (13), foram confirmados na Itália mais de 17 mil casos e o número de mortes já havia ultrapassado 1,2 mil. Depois da China, a Itália é o país que enfrenta o pior surto de Covid-19, como é chamada oficialmente a doença causada pelo novo coronavírus.
Na segunda-feira (9), primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, pediu que as pessoas ficassem em casa. Viagens dentro e fora do país foram limitadas — podem ser realizadas apenas por motivo de trabalho e emergência.
Bares e restaurantes deveriam fechar as portas às 18h. Apesar de mais vazias, as principais cidades italianas continuaram funcionando.
Conte, então, ordenou o fechamento do comércio. O premiê determinou na noite de quarta-feira (11) que somente serviços essenciais como supermercados, lojas de alimentos, farmácias, bancos, correios, tabacarias, postos de combustível e transporte coletivo poderiam funcionar.
A medida provocou uma corrida aos supermercados e às farmácias, onde as pessoas precisam manter uma distância de um metro umas das outras e o acesso está sendo controlado. No caso dos hipermercados, entram pequenos grupos de cada vez. Em lojas menores, apenas uma pessoa por vez.
‘Comida para viagem’
Em Bolonha, cidade universitária da Emiglia Romana, região do norte, pessoas continuam pedalando e caminhando pela cidade. Os ônibus estão cada vez mais vazios e nem todos os motoristas usam máscaras, como determinado pelo governo.
No centro da cidade, bares e cafés que deveriam estar fechados anunciam que só vendem “comida para viagem”. O dono de uma dessas lojas, que pediu para não ser identificado, limitou as vendas a salame, queijo, bacon e sanduíches. Ele diz que não pode se dar ao luxo de fechar nem de jogar fora as comidas que preparou.
Alguns bares e cafés seguem funcionando, mas apenas fazendo entregas
Remo Casilli/Reuters
Diferentemente de Roma, onde a polícia tem feito patrulha para exigir o fechamento de lojas e assegurar que as pessoas fiquem passeando pelas ruas, Bolonha parece estar sendo menos controlada.
Nesta sexta, foi possível ver numa das principais vias da cidade uma loja de uma empresa de telefonia com as portas abertas, atendendo clientes. Na porta, apenas um aviso para as pessoas manterem um metro de distância umas das outras. Era uma das poucas a desafiar o bloqueio em Bolonha.
A igreja de São Felipe Giacomo, construída em 1641, também pregou um anúncio na porta suspendendo missas e festividades. Mas segue aberta, diz o aviso, para oração individual.
“As pessoas acharam, no início, que seria como tirar férias. Mas, desde ontem, passaram a levar mais a sério esse negócio de ficar em casa. Finalmente entenderam os riscos. Só ontem Bolonha começou a se fechar”, diz a comerciante italiana Sonia Ferrine.
Ela colou na porta do restaurante um cartaz anunciando que as vendas estão restritas ao delivery.
“O decreto do governo é duro, mas é para o nosso bem. Por isso estamos vendendo só por meio de aplicativo”, disse, chamando atenção para a quantidade de entregadores cruzando as esvaziadas ruas da cidade de moto e bicicleta.
Sonia diz não ter medo do coronavírus, mas garante que tem mantido a distância exigida e respeitado as regras impostas pelo governo. O maior problema, diz ela, é a falta de leitos e respiradores nos hospitais. Para ajudar a combater o coronavírus na Itália, uma delegação da China levou para o país europeu respiradores artificiais, máscaras e suprimentos médicos.
Tédio em casa
A estudante canadense Julia Nuth, de 20 anos, também diz não ter medo de ficar doente. Na Itália há dois meses, ela decidiu seguir a orientação do primeiro-ministro. Comprou 60 euros em mantimentos e se preparou para quarentena.
Mas, depois de uma semana trancada em casa, decidiu ir sozinha a um parque ler um livro e aproveitar. “Estava ficando entediada dentro de casa”, diz a canadense.
Nuth veio para a Itália fazer um intercâmbio de seis meses. Largou o estágio, aprendeu a falar italiano e, dois meses depois de chegar, não sabe se fica ou se volta para o Canadá.
“Estou triste. Todo mundo que eu conheci foi embora, mas ainda tem muita coisa da Itália que quero ver. Agora, não sei se ficou ou se volto para casa. Não vejo as coisas melhorarem aqui. Apesar de ser jovem e, por isso ter menos chances de ficar muito doente, sei que posso representar um risco para as pessoas se voltar ao Canadá”, diz Nuth, enquanto toma sol, sentada na grama de um parque em Bolonha.
Apesar de o decreto do primeiro-ministro não tratar especificamente de parques e praças, a prefeitura da cidade decidiu fechar 35 áreas verdes da cidade para evitar conglomerados. Mas como a porta do parque estava aberta, muitas pessoas, em sua maioria jovens, decidiram aproveitar o sol, correr ou caminhar com seus cachorros.

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