Entramos em economia de guerra


O exemplo mais próximo na história para o impacto econômico do novo coronavírus são os momentos em que a população se vê obrigada a partir para o combate nas trincheiras Diagnóstico laboratorial do coronavírus realizado pelo Laboratório de Vírus Respiratório e Sarmpo do Instituto Oswaldo Cruz
José Damacena/IOC Fiocruz
A principal dificuldade para avaliar o impacto do novo coronavírus na economia e no planeta é óbvia: o mundo nunca viveu nada parecido. Não existe manual para reagir a uma crise dessa ordem, nem um conjunto de regras que economistas possam tirar da cartola.
Não é, portanto, nenhuma surpresa que o governo brasileiro tenha voltado atrás no item da medida provisória baixada ontem que permitia a suspensão do pagamento de salários por quatro meses. O vaivém é resultado de uma desorientação presente no mundo todo. Ninguém sabe o que fazer. Não espanta o método da tentativa e erro.
De concreto, estamos diante de uma recessão de tamanho ainda insondável. O essencial será manter o fornecimento de produtos e serviços essenciais durante a duração da quarentena e evitar um colapso da atividade econômica. O governo precisa agir para evitar a quebradeira geral e garantir a travessia menos dolorosa possível nos dias difíceis adiante? Mas como?
É aí que as ideias se embaralham. O primeiro impulso é repetir o que foi feito na crise de 2008, quando bancos centrais do mundo todo injetaram trilhões no mercado financeiro para evitar a implosão. Mas esta será uma crise distinta. Não foi gerada por malabarismos das finanças, mas resultará da paralisia na economia real. É nela, portanto, que os governos devem concentrar a ação.
O exemplo mais parecido que a história nos oferece são as guerras, momentos em que a população para de fazer o que normalmente faz e se concentra num desafio externo: o combate nas trincheiras. A produção é desviada para o esforço de guerra, reservistas são convocados, a agenda nacional ganha contornos militares. Epidemias e guerras, escreveu Albert Camus, sempre chegam de surpresa. Ninguém nunca está preparado para elas.
Agora, o inimigo não é um Exército ou país estrangeiro, mas um microorganismo invisível. Os recursos deveriam ser concentrados prioritariamente na batalha contra a Covid-19, com um gabinete de crise cuidando da produção e implantação de testes anundantes em todo o país, dos critérios e regras para quarentenas ou fechamento do comércio e da ajuda para governos municipais e estaduais manterem a ordem pública durante o período de isolamento social.
Como em toda guerra, o trabalho mais importante será o dos cientistas. Eles devem ter papel decisivo tanto na elaboração quanto na execução das estratégias de combate.
Parte da população deveria ser ocupada em forças de apoio a hospitais, laboratórios ou mesmo em atividades simples, como auxiliar idosos ou desinfetar e limpar ruas e o transporte público. Cabe ao governo organizá-las usando contratos temporários ou mesmo dispondo da ajuda das empresas que estão paradas.
Para aqueles que não terão atividade concreta, é preciso haver garantia de renda mínima. É preciso, também, tentar evitar ondas de demissão em massa nas empresas cujo faturamento fatalmente despencará. A redução de salários não deve ser considerada um tabu, desde que mantida num nível que garanta o pagamento de contas, que sirva para preservar os empregos e que não seja aplicada aos mais pobres, dependentes da renda para subsistência.
O primeiro a reduzir salários deveria ser o próprio Estado, sobretudo nas categorias do setor público que integram o centésimo mais rico da população. Deveria também ser estudado subsídio para redução nas contas de água, luz, gás e telefone, além da extensão de prazos para pagamento delas durante a quarentena.
Por fim, será essencial garantir linhas de crédito às empresas, para que possam arcar com os salários ao longo do esforço de combate à Covid-19. Crédito farto, a juro zero e com prazo longamente dilatado. Uma boa ideia seria voltar a desonerá-las do pagamento do imposto sobre a folha de pagamento, novamente mediante garantia de preservação dos empregos e de participação no esforço de guerra contra o vírus.
Não deve, neste momento, haver preocupação com o impacto dos gastos no perfil da dívida pública. Ela crescerá, sem dúvida, como costuma crescer nas guerras. Mas o estado de calamidade pública justifica medidas extraordinárias. Exige também, no mundo todo, estadistas à altura do desafio. O presidente Jair Bolsonaro tem, até agora, fracassado miseravelmente na tarefa. Não será nada baixo o preço que tanto ele quanto o país pagarão por isso.

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