Em meio à crise do coronavírus, brasileiros retidos na Arábia Saudita não têm previsão de retorno


Embaixada e Itamaraty não oferecem respostas precisas a grupo que tenta voltar ao Brasil. Na África do Sul, brasileiros já com passagens em mãos relatam medo de não conseguir deixar o país, prestes a entrar em isolamento e fechar aeroportos. Rafael Dallacqua na praça Deera, em Riade, na Arábia Saudita
Rafael Dallacqua/Acervo pessoal
Dois viajantes de perfis bastante distintos acabaram unidos em uma semi-quarentena inesperada em Riade, na Arábia Saudita. Agora, tentam não apenas voltar para casa, mas também ajudar outros brasileiros a retornarem ao país em meio a pandemia de coronavírus.
Rafael Dallacqua, de 33 anos, estava em meio a uma viagem como mochileiro que já durava dois anos quando foi pego de surpresa pelo fechamento das fronteiras sauditas, enquanto o empresário Marcelo Pinheiro, de 42, estava no Oriente Médio para negociar o contrato de um jogador de futebol que representa.
Pinheiro tinha seu voo para o Brasil marcado para o dia 17 de março, quando foi informado de que os aeroportos sauditas fechariam no dia 16. Ele ainda conseguiu comprar um novo bilhete para o dia 15, mas não adiantou: ficou retido.
Já Dallacqua tinha planos de continuar viajando até o final deste ano, passando da Arábia para os Emirados Árabes, onde pegaria uma balsa para o Irã, subiria para Iraque e Curdistão, até chegar à Turquia. Mas desistiu de tudo isso.
Ambos estão hospedados em casas de amigos, à espera de uma resposta sobre quando poderão regressar. Enquanto isso não acontece, organizaram um grupo no Whatsapp para reunir outros brasileiros que também ficaram retidos na Arábia, e que tem 15 participantes. Juntos, se encarregam dos contatos com a embaixada brasileira e o Itamaraty, que até o momento não deram nenhum retorno positivo.
“É muito angustiante, porque eles não sabem de nada. Estamos bem aqui, mas inicialmente o governo disse que os aeroportos fechariam por 15 dias, agora vão aumentar o prazo. Já tem gente dizendo que podemos passar semanas, meses aqui. Temos família. Minha mulher passou por um tratamento de saúde ano passado, tenho três filhos me esperando também”, lamenta Pinheiro, que conversa com os parentes por vídeo para tentar manter a calma dos dois lados das chamadas.
“O Itamaraty nos manda falar com a embaixada. A embaixada nos diz que está esperando orientação do Brasil para agir. Não nos deram nenhuma previsão. Disseram para alguns de nós (não para mim) para nós prepararmos psicologicamente para ficar 3 meses por aqui”, diz Dallacqua.
Ele se preocupa que, pelo fato de o grupo não ser tão grande, a Arábia não esteja entre as prioridades do Itamaraty.
Na segunda-feira (23), o Ministério das Relações Exteriores estimava que ainda havia 6 mil brasileiros retidos no exterior, por causa de fechamentos de fronteiras ou cancelamentos de voos. A maioria deles, pelo menos 2 mil, estaria em Portugal.
Ainda segundo o Itamaraty, o governo brasileiro já conseguiu auxiliar pelo menos 3 mil brasileiros a voltarem ao país, a maior parte vinda de Portugal, Marrocos e Peru.
Rotina
Com o câmbio “que foi para as alturas nesse cenário de incerteza” e para não ter que se hospedar em um hotel por tempo indeterminado, Dallacqua aproveita a hospitalidade de pessoas que conheceu em Riade, e já está na terceira casa diferente. Atualmente, ele dorme na sala do apartamento de um egípcio, onde também estão uma russa e uma espanhola, na mesma condição.
“A rotina é ficar o dia todo em casa. Já ninguém saía antes durante o dia por causa do calor, agora tem um toque de recolher oficial aqui das 19h às 6h. Com multas pesadas, R$ 12 mil se descumprir, o dobro na segunda vez e prisão na terceira. Há exceções, como ir ao mercado, que está funcionando normalmente, não há falta de produtos e também não teve aqueles casos de aumentar os preços dos produtos mais demandados (o governo controla e não permite que isso aconteça)”, conta.
Brasileiro mostra restaurante durante pandemia de coronavírus em Riade
“Também tem exceção para ir à farmácia e tem um número de emergência que você pode chamar em caso de suspeita de Covid-19, eles vêm até sua casa te testar e você não precisa ir ao hospital e correr o risco de infectar mais pessoas”, acrescenta.
“E não tem o que fazer, está tudo fechado. Todas as fronteiras, voos, transportes (público e táxis), atrações turísticas etc”, resume.
Trabalho remoto, porém, praticamente não existe. Apesar de todas as restrições, como os restaurantes que só podem funcionar em sistema de delivery, grandes empresas não dispensaram seus funcionários para trabalharem em casa.
Segundo a Universidade Johns Hopkins, a Arábia Saudita registrava, na terça-feira (24), 767 casos de Covid-19 e uma morte pela doença.
África do Sul
Também na África do Sul brasileiros estão enfrentando dificuldades e incerteza para garantir o retorno ao Brasil. O país irá entrar em isolamento na noite de quinta-feira, e os estrangeiros que tiverem passagens com datas posteriores a 26 de março não poderão deixar o local onde estiverem hospedados até o momento da partida.
A Universidade Johns Hopkins indica que a África do Sul tinha na terça 554 casos de Covid-19 e nenhuma morte. A disseminação da doença, porém, é rápido no país e em todo o continente africano.
A empresária Naiade Granatelli, que viajou a turismo, tinha seu voo para o Brasil marcado para o dia 23 de março pela South African Airways. Quando ela chegou ao continente africano, ainda não havia sido declarada a pandemia, mas, estando lá, tentou antecipar a volta e não conseguiu. Seu voo foi cancelado e ela comprou novos bilhetes pela Latam para regressar no dia 31.
Ela narra dificuldades de comunicação com representantes das companhias aéreas e diz que brasileiros que falam inglês se uniram para ajudar todos a ter mais informações.
Granatelli está hospedada em um hotel pago pela Latam, que está reunindo todos os que tentam voltar. Sobre o apoio do consulado brasileiro em Joanesburgo, a empresária diz que estão em contato com o escritório e que eles dizem que tentam pressionar as companhias aéreas para que todos possam voltar.
“O clima aqui não estava o mesmo que vemos no Brasil agora, mas, aos poucos, os pontos turísticos foram fechando e segunda o presidente fez um pronunciamento e decretou que a partir de quinta tudo deve fechar”, diz.
A brasileira conta que há filas nas farmácias e relata mercados vazios. Segundo ela, alguns brasileiros têm dificuldade em comprar remédios porque tiveram que estender o período no país e há a obrigatoriedade de apresentar receita para a compra de medicamentos.
“É estranho porque a cultura é outra. Eles já não são tão receptivos, agora ainda menos”, afirma.
Fila de passageiros que esperam por voo no aeroporto de Joanesburgo, na África do Sul, muitos deles cancelados por conta da epidemia de Covid-19, em 22 de março
Naiade Granatelli/Arquivo Pessoal
Ricardo Couto, pós-doutorando da Universidade de Cape Town, embarcou para a África do Sul para um congresso e para concluir os trâmites do pós-doutorado que cursou na Universidade da Cidade do Cabo. Ele também iria participar de um congresso na Zâmbia que acabou sendo cancelado por conta da epidemia.
A volta dele já estava prevista para o dia 31, mas há apreensão sobre como ficará a situação do país após o fechamento decretado para esta quinta-feira pelo presidente sul-africano.
“Quando o congresso foi cancelado eu comecei a pensar em retornar”, diz Couto. “Depois de muitas tentativas eu consegui alterar a passagem para o domingo (22), mas meu voo foi cancelado”, diz.
Ele explica que a companhia aérea (Latam) o mandou para um hotel enquanto esperasse uma nova oportunidade de voo, e segundo ele, a cada dia mais brasileiros chegam neste local esperando por um voo da companhia. Um grupo de cerca de 300 pessoas, segundo Couto, se reuniu para poder se organizar e conversar com a companhia aérea e a embaixada brasileira em Pretrória.
“Temos um receio de ter overbooking nos voos dos dias 30 e 31 e alguns poucos brasileiros ficarem sozinhos para trás”, diz.
Segundo Couto, o hotel mudou a forma de tratamento com os hóspedes como medida de segurança para diminuir os riscos da pandemia de Covid-19.
“Nenhum funcionário entra nos quartos de nenhum dos hóspedes, nós recebemos os ítens de limpeza, sacos de lixos, na porta. Há uma preocupação para que se evite a contaminação para as pessoas que estão aqui”, conta o pesquisador.

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