Demissões, isolamento e melancolia: a capital dos EUA em quarentena pelo coronavírus


Com 32 casos da doença, Washington D.C. vive a crise econômica da pandemia e a quebra de rotina do ‘distanciamento social’ Cerejeiras à margem do Tidal Basin, em Washington DC, que costumam atrair centenas de visitantes nesta época do ano, em foto de quarta-feira (18)
Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Apelidada pelo escritor americano Henry James de “a cidade da conversa”, por congregar na mesma mesa de bar políticos rivais, lobistas e ativistas, Washington D.C. talvez possa ser descrita hoje como a cidade do silêncio.
Nem calçada se compartilha mais na capital americana: basta que um dos transeuntes aviste alguém na outra ponta do passeio para tomar a decisão imediata de atravessar a rua.
Há uma semana em estado de emergência pela epidemia de coronavírus, parte importante dos grandes escritórios da cidade determinou que seus funcionários passassem a trabalhar em seus lares.
O que se viu no fim de semana foi um curioso trânsito na rua de monitores e teclados que as pessoas levavam do trabalho pra casa. Washington tem 600 mil habitantes e ao menos 32 casos confirmados da covid-19, doença causada pelo vírus.
“Nem depois do 11 de Setembro vi a cidade viver um choque tão grande, uma quebra total da sua rotina. É uma cidade de encontros, nosso trabalho é ser social, e agora não temos como fazer isso mais”, afirma a consultora Gabrielle Trebat, que vive em D.C. há mais de 20 anos e que já atuou como assessora de parlamentares e na campanha presidencial de Al Gore.
Atualmente ela se desdobra entre atendimentos de clientes em vídeoconferência, “homeschooling” do filho e a faxina da casa enquanto cumpre quarentena por ter tido contato com pessoas contaminadas com coronavírus.
Sem reuniões, sem museu, sem igreja
A epidemia que viria a calar Washington D.C. começou, oficialmente, em um evento típico da cidade: no fim de fevereiro, um doador da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), testou positivo depois de participar do evento.
Por ali passaram o presidente dos EUA, Donald Trump, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.
O efeito em cascata foi imediato sobre os políticos republicanos – até o chefe de gabinete de Trump entrou em quarentena.
Ao mesmo tempo, o pastor de uma igreja episcopal em Georgetown anunciou estar com o coronavírus e pediu que todos os fiéis permanecessem em casa.
Foi provavelmente ali que um colega de escola do filho de Trebat contraiu o vírus. Dias mais tarde, o próprio diretor da escola estava doente.
A vida está em suspenso: pela primeira vez o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial cancelaram sua reunião de primavera para divulgar os prognósticos para a economia mundial – que costuma atrair ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central de diversos países, incluindo o Brasil.
As senhoras de D.C., que ostentam finos chapéus ornamentados a caminho das missas ou cultos ao domingo, desapareceram das ruas conforme as pregações passaram a ser online ou foram simplesmente canceladas.
“Duas coisas agora estão claras: a distância social é necessária para impedir a propagação do coronavírus e as populações em maior risco estão altamente representadas entre nossas congregações e clérigos”, afirmou a Bispa Mariann Budde, em referência aos idosos, que são a maioria dos fiéis, na carta em que anunciava, há seis dias, o fechamento de mais de 250 unidades da igreja episcopal na região.
Presidente Trump acredita que a epidemia durará até agosto no país
Leah Millis/Reuters
Os 19 mundialmente famosos museus da rede Smithsonian, que abrigam, por exemplo, o mais completo fóssil de Tiranossauro Rex já encontrado ou a maior quantidade de artefatos espaciais do mundo, anunciou que fecharia as portas como parte do esforço no combate ao vírus.
A Galeria Nacional adiou uma recepção para convidados para sua nova exposição de obras do francês Edgard Degas.
As universidades Georgetown e George Washington cancelaram suas aulas presenciais. As escolas públicas da cidade pararam – deixando sem aula os quase 50 mil alunos da rede.
Não há prazo determinado para que a vida volte ao normal na cidade, mas a expectativa é de que isso pode levar meses, já que o presidente Trump acredita que a epidemia durará até agosto no país.
O Congresso Nacional deve entrar em recesso assim que terminar de aprovar um pacote de emergência de US$1 trilhão para trazer alívios aos americanos em meio à crise econômica derivada da pandemia.
Sob extrema pressão de parlamentares, que pediam suspensão das sessões pelo temor de uma epidemia entre eles, a presidente da Casa dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, definiu a sensação de desconsolo na cidade: “Nós somos os capitães do navio. Somos os últimos a abandonar o barco”.
Restaurantes, cafés e bares fechados: demissões em massa
No fim de semana, os bares se prepararam para o que seria potencialmente seu melhor dia de negócios no ano: as celebrações do padroeiro irlandês St. Patrick.
Havia decoração com o trevo de quatro folhas em néon e promoções de bebidas, mas nada animou as pessoas a se sentarem na mesa para pedir uma cerveja.
O tradicional restaurante Dubliner, acostumado a atender há mais de 4 décadas cerca de 600 pessoas em um típico dia de St. Patrick, ficou vazio. Seus 70 garçons foram demitidos.
Essa foi a última oportunidade para donos de bares e restaurante tentarem atrair clientes em um período de tempo indeterminado: na segunda-feira, a prefeitura ordenou que eles fechassem as portas. Só o serviço de delivery poderia ser mantido.
Os cafés, comuns a cada esquina, têm dificuldades para sobreviver: numa cidade em que ninguém mais ousa se encontrar para conversar, o número de frequentadores caiu drasticamente antes mesmo da obrigação de fechamento pela prefeitura.
A rede Compass Coffee, original de D.C., foi uma das primeiras a acusarem o golpe: nesta terça-feira, demitiu mais de 80% de sua força de trabalho.
“Como muitos de vocês sabem, a situação do coronavírus está sendo devastadora para a Compass. Nossas vendas caíram 90%. Na noite passada, nós decidimos demitir a grande maioria dos nossos baristas para que eles possam ter acesso a benefícios de seguro desemprego”, publicou o café em suas redes sociais.
O chefe José Andrés, estrelado pelo guia Michelin, converteu alguns de seus restaurantes na cidade em espaços nos quais serve sopas a preços populares – US$ 7 – para os mais atingidos economicamente pela pandemia.
“Aqueles que não podem pagar nada também são bem vindos”, afirmou Andrés pelo Twitter. Ele já havia feito algo semelhante quando o furacão Maria destruiu Porto Rico, em 2017.
O ‘cancelamento das cerejeiras’
O início da primavera, momento em que as cerejeiras e magnólias da cidade florescem, rivaliza com o Halloween, em outubro, como o momento mais efervescente para Washington D.C..
É o fim do inverno, e os americanos estão ansiosos para aproveitar um pouco de tempo ao ar livre. Alguns pontos, como a baía Tidal Basin, cuja orla se tinge com os tons de rosa das flores de cereja, atraem não só os moradores de Washington, mas milhares de turistas – especialmente no auge da floração, previsto para o próximo fim de semana. Não dessa vez.
“O metrô se reserva o direito de fechar a qualquer momento do dia as estações próximas a Tidal Basin para desencorajar visitas de turistas”, alertou o serviço de transporte da cidade nesta semana.
De acordo com o comunicado, o número de passageiros já caiu 70% em relação ao normal. A circulação dos trens e o horário de operação foram reduzidos.
Algo semelhante aconteceu com os ônibus da cidade – só que, nesse caso, o motorista pode simplesmente ignorar paradas se o veículo estiver cheio a ponto de não permitir a distância de cerca de 2 metros entre cada passageiro.
“Não faça viagens a menos que seja absolutamente necessário”, alerta o sistema em letras garrafais.
O Congresso americano deve entrar em recesso após aprovar um pacote de emergência de US$ 1 trilhão
Reuters/Mike Segar
Para a família do recifense Victor Carvalho, a chegada da primavera deveria ter sido feliz – era a chance que seus três filhos, todos menores de sete anos, esperavam para brincar nos parquinhos da cidade e rolar na grama. Mas não foi.
Mestrando na Universidade George Washington, nos últimos dias, ele tomou a decisão de ir embora do país.
“Há 15 dias, eu quebrei financeiramente. Nem nos meus piores pesadelos eu imaginava o dólar a R$ 5. Mas me virei, pedi dinheiro emprestado, ia dar pra continuar aqui. Nos últimos dias, me dei conta que não adiantaria ter dinheiro. Vou ao supermercado e as prateleiras estão vazias, é um desespero.”
Carvalho conta que a família está há dias trancada em casa e sem saber quando isso vai acabar. “Melhor voltar para o Brasil, então”, afirmou ele, que nesta quarta-feira alugou um caminhão para distribuir entre amigos os móveis da casa que montou em Washington há 8 meses.
Em um grupo na rede Reddit sobre Washington DC, um internauta tentou desanuviar: “Nem tudo é desgraça e melancolia. Saí rapidinho e dei de cara com isso”, postou o o usuário de nickname Dfizzle2, acompanhado da imagem de uma cerejeira florida em Bishop’s garden, próxima à Catedral de Washington.
Bastou para receber centenas de recomendações e reprimendas: “Fique em casa, droga”.
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