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Agora que a Lei da SAF está em vigor, começam a surgir os primeiros sinais de migrações de associações para a nova estrutura empresarial criada especificamente para o futebol. Neste artigo, vamos falar dos primeiros movimentos, que começam prometendo a glória eterna, mas que podem acabar no limbo eterno.

Vamos lá, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Pela enésima vez, volto a dizer que ser empresa não vai transformar magicamente as gestões caso as pessoas sejam as mesmas, nem transformar clubes inviáveis em grandes potências do futebol mundial. Ainda que o modelo associativo tenha inúmeras fragilidades, não é a estrutura societária que faz a diferença, e sim a forma como ela é gerida. Fica chato bater nesta tecla o tempo todo, mas é importante para não restar dúvidas.

Atualmente existem dois movimentos muito claros de clubes que estão buscando a constituição da SAF. O primeiro grupo é formado por clubes de pequeno porte que estão se estruturando no modelo de formação de atletas. Iniciar como SAF, ou se transformar numa, é condição necessária para receber investimentos que possibilitem melhorar estruturas de captação e formação de categorias de base.

O outro grupo que se organiza rapidamente nesse sentido é o de clubes em estado de calamidade financeira. Transformar-se em SAF é a alternativa que restou para tentar se recuperar. A situação de clubes como Botafogo, Cruzeiro e Vasco, para ficarmos nos casos de maior apelo de torcida, não dá muitas alternativas para reestruturação. Eles já utilizaram o Regime Centralizado de Execuções de maneira esperta, então nada mais justo que seguir o barco e virar uma SAF.

Se no caso dos clubes de formação o modelo é interessante, porque em geral ele nasce “limpo” e sem dívidas, para os casos como o do trio “BCV” a conversa é mais complexa.

O primeiro movimento foi do Cruzeiro, que aprovou internamente a venda de até 49% das ações da SAF para investidores, prometendo mundos e fundos a partir do auxílio de profissionais de mercado financeiro, mas com pouca ou nenhuma bagagem no futebol. Nem internamente, nem em relação a como o mercado funciona.

Não é à toa que aquelas dezenas de investidores dos quatro cantos do mundo parecem não ter aceitado exatamente esta condição de compartilhar controle com a associação, de forma que foi divulgada a informação de que o clube deve propor alteração para vender o controle, ou seja, 51% ou mais das ações. E certamente, ao fazer isso, entregará a gestão de todo o ativo para o sócio. Tal qual temos falado frequentemente: ninguém vai pôr dinheiro bom em gestores ruins.

Depois temos a ideia de criar SAFs apenas para se aproveitar do modelo de reestruturação financeira e de financiamento. Lembremos que a SAF tem como benefício a possibilidade de se pedir Recuperação Judicial (RJ), usar regularmente o Regime Centralizado de Execuções e destinar até 20% das receitas para a associação pagar todas as dívidas, o que coloca pressão sobre os credores.

Além desse benefício, que eu entendo exagerado e pode ser questionado por credores, há o risco do pedido de falência por parte dos credores. Sempre lembro desse ponto: o benefício tem um custo.

Na semana passada, o Vasco anunciou que pretende seguir este caminho para poder se aproveitar do fato de ser uma espécie de Sociedade Anônima (S/A) e emitir debêntures, que são títulos de dívidas que apenas as S/As podem emitir. O discurso vem sempre associado à parte positiva, que é dizer que o torcedor poderá investir nas debêntures sendo remunerado pela poupança (TR+ 6% a.a.), e que para o clube seria ótimo por não ter custos dos intermediários, como no caso de empréstimos feitos pelos bancos.

Lindo discurso, mas para emitir debêntures é preciso uma série de registros, banco emissor, agente fiduciário… enfim, há uma série de custos. Não dá para emitir debêntures sem esses custos, ainda que haja alternativas de custos para todos os bolsos.

Além disso, o fato de haver um instrumento de financiamento não significa que haverá demanda. A questão é sempre de risco/retorno. Por que alguém vai comprar uma debênture do Vasco SAF recebendo TR + 6% a.a., com todos os riscos envolvendo uma atividade complexa e de uma empresa em processo de recuperação, se poderia comprar debêntures da CCR (concessão rodoviária, fluxo de caixa estável) para recebimento em 5 anos ao custo de CDI+ 2,20% a.a. (o que dá 9,95% ao ano, hoje), ou da Sabesp, que está indo a mercado com papéis de 5 anos a CDI + 1,29% (equivalente a 9,04% ao ano), de um negócio tradicionalmente estável?

Clubes de futebol europeus, mesmo quando possuem donos ou são de capital aberto, são considerados ativos de desempenho volátil, de risco acima da média. Obviamente que não se compara ao CDI + 10% ao ano (17,75% a.a.) que os clubes brasileiros pagam, justamente porque são mais arriscados que pares europeus. Mas não faz nenhum sentido vender a ideia de que alguém que faça contas aceitará receber 6% ao ano com os mesmos riscos políticos e de gestão que trouxeram os clubes ao cenário atual.

Temos que entender a SAF como alternativa para crescimento e desenvolvimento dos clubes, compartilhando ganhos entre a associação que permanecer como sócia e o novo dono. E novo dono significa alguém que vai colocar dinheiro, vai aportar mudanças estruturais, reforçar aquilo que é bem-feito e mudar o que não dá certo. E muito do que não dá certo é resultado do trabalho ruim de pessoas.

Falta de governança corporativa, que pode ser traduzida como falta de transparência e prestação de contas, falta de equidade – e com ela os famosos benefícios aqui e acolá, que geram ganhos políticos pensando na próxima eleição – e a incapacidade de preservar a imagem do clube perante a sociedade.

Não dá para pensar o processo de mudança que se espera se mantivermos no comando todas as pessoas que trouxeram o futebol até este momento. Nem todos precisam ser substituídos, mas uma boa chacoalhada na estrutura será necessária. Instituições são feitas de pessoas: sócios, conselheiros, dirigentes e seus amigos.

Sei que dizer isso incomoda, mas precisamos trazer gente nova e, possivelmente, de competições bem mais desenvolvidas para mudar o rumo do futebol brasileiro. Treinadores, preparadores, auxiliares, diretores esportivos. Mas é uma mudança complexa e que mexe com a vaidade. Em 2005, a Premier League viu o surgimento do primeiro Sporting Director, Damien Comolli, que chegava ao Tottenham. Na entrevista de apresentação, ele foi questionado “se haveria futuro para a função no futebol inglês”, então dominado por “managers” como Arsene Wenger, responsáveis por todo o departamento de futebol a partir do campo.

Hoje, todas as equipes desde a Premier League até a terceira divisão possuem Diretores Esportivos, função que começou a se destacar na Itália dos anos 1990. O diretor do Brighton, Dan Ashworth, comentou numa matéria da The Athletic sobre sua função: “é sobre a coordenação do futebol, contratando especialistas que trabalham a partir de políticas e orçamentos”. Apesar de ter Licença Pro da UEFA, Ashworth não se vê na posição de treinador, mas se sente capaz de coordenar todas as atividades, da gestão de dados das categorias de base às contratações, passando pelo suporte ao modelo de jogo do técnico que ele ajudou a escolher. E ajudou, porque nas estruturas tudo é discutido em comitês a partir das tais políticas e limites. Governança corporativa.

Por que chegamos ao Diretor Esportivo? Porque a SAF não será transformadora se os objetivos e a forma deles serem atingidos não forem claras e trouxerem mudanças substanciais. Não basta a mágica de um novo CNPJ. É necessária que exista algo novo, que começa com a renúncia do controle acionário, passa por vender soluções realistas e abrir espaço para que novas pessoas e ideias surjam.

Há bons profissionais no mercado que devem ser valorizados pela qualidade e experiência e ajudarão nesse processo. Mas, se for para manter todos e suas ideias muitas vezes ultrapassadas, a SAF será apenas mais uma forma de empurrar os problemas para um futuro que pode não existir.

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