Coronavírus e renda fixa: qual é o impacto nos investimentos?

SÃO PAULO – Em meio à crise causada pela pandemia de coronavírus, a redução da taxa Selic para 3,75% ao ano deixou os investidores de renda fixa cheios de dúvidas. Ainda vale a pena apostar nesse tipo de instrumento? Que tendências devem se materializar daqui por diante? Quais as chances de os juros básicos da economia caírem ainda mais?

O economista Alan Ghani, consultor de investimentos e articulista do InfoMoney, respondeu as perguntas enviadas nesta semana pelos leitores pela campanha #InfoMoneyOrienta. Muitas dúvidas eram sobre a variação das taxas e dos preços dos papéis de renda fixa disponíveis no mercado. Ghani explica que o prêmio de risco de aplicações como títulos públicos aumentou e, por isso, as taxas de juros oferecidas subiram.

“O prêmio de risco envolve a percepção do mercado sobre o risco de crédito, que aumenta porque a situação fiscal do país, em uma crise como a atual, piora”, explica. Mas ele também decorre do risco de liquidez, que cresce quando todo mundo procura ter dinheiro em espécie, e de mercado, decorrente da grande volatilidade hoje presente.

Por que meu investimento em títulos de inflação está negativo?

A alta dos juros nos papéis prefixados e atrelados à inflação agradou os investidores fãs do Tesouro Direto, mas muitos deles não entenderam por que seus extratos agora apresentam um valor menor para os papéis que já tinham adquirido anteriormente. O economista explica que existe uma relação inversa entre as taxas de juros atuais e os preços dos títulos públicos comprados no passado.

“Suponha que você comprou uma NTN-B [Tesouro IPCA+] que pagava juros de 4% ao ano mais IPCA. Esse é o ganho que foi garantido até o vencimento do papel, todo ano”, diz. Se seis meses depois o mesmo título, com o mesmo vencimento, estiver oferecendo juros de 3% ao ano mais IPCA, o papel mais antigo estará em vantagem – por ter uma taxa mais atrativa. Assim, quando os juros caem, o preço dos papéis antigos sobe, já que a remuneração deles é melhor.

O contrário, no entanto, também é verdadeiro. Se os títulos que ofereciam 4% de repente passam a pagar 6% mais IPCA, os títulos antigos se tornam menos interessantes em termos de remuneração – e, por isso, perdem valor. Foi exatamente o que aconteceu no momento atual.

O que fazer com a renda fixa agora então?

A renda fixa, explica Ghani, oferece algo muito atraente para os investidores: uma rentabilidade combinada desde o início. “E isso ninguém tira de você, se permanecer na aplicação até o vencimento. Por isso, quem tem títulos prefixados ou atrelados à inflação e sentiu o peso da volatilidade dos últimos dias não deve fazer absolutamente nada, porque já tem rentabilidade garantida até o vencimento. Na pior das hipóteses, você vai ter o ganho contratado.”

É diferente de uma ação, que pode valer praticamente nada quando a empresa emissora vai à falência, por exemplo. Quando a situação com o coronavírus começar a ser resolvida, segundo Ghani, vai ser possível perceber um recuo das taxas de juros – e quem tiver comprado papéis agora que elas ainda estão altas poderá embolsar ganhos ainda maiores.

Quem tem títulos prefixados antigos terá ganhos se vender após a queda da Selic?

Ghani destaca que a queda da Selic já está precificada nas taxas oferecidas pelos títulos públicos. Como elas subiram nos últimos dias em relação aos últimos meses, o economista explica que quem vender papéis antigos hoje embolsará o ganho verificado nos preços em função desse movimento.

Comprei títulos indexados ao IPCA na turbulência, contando com os ganhos da marcação a mercado. Então por que as taxas não baixaram com a queda da Selic?

As taxas, segundo Ghani, ainda refletem muito mais o prêmio de risco dos papéis do que os movimentos do governo em relação à Selic. “Pode ter certeza de que, quando a situação normalizar, as taxas irão cair”, diz.

É hora de comprar papéis prefixados?

Ghani prefere títulos indexados à inflação a papéis com retornos prefixados ou que acompanhem a variação da taxa básica de juros, como o Tesouro Selic. “Não iria de prefixados agora, porque pode haver uma questão inflacionária no longo prazo, e a NTN-B protege disso”, diz.

Mas o economista não descarta as LFTs (Tesouro Selic) por completo. “Em períodos de crise, para quem acha que pode precisar resgatar o dinheiro antes do vencimento, a LFT é um papel que não desvaloriza”, afirma.

As NTN-Bs, por outro lado, embora estejam oferecendo taxas muito atrativas, podem dar prejuízo a quem precisar do dinheiro antes da hora. “Eu mesmo tenho 10% da minha carteira investidos em LFTs”, explica o economista, ressaltando que se trata de sua reserva de emergência. Ela pode ser acionada inclusive para fazer outros investimentos – se o mercado acionário ficar muito barato, por que não aproveitar a liquidez da LFT para resgatá-las e usar o dinheiro na bolsa?, indaga Ghani.

O risco dos títulos de inflação é muito maior do que o dos prefixados?

Existem duas variáveis envolvidas nesse caso: vencimento e taxa. Os títulos de inflação normalmente são muito longos – vencem em 10, 20 ou até 30 anos. E esse é um elemento que traz volatilidade aos papéis, porque as incertezas no longo prazo são maiores.

Já os títulos prefixados são mais curtos, mas sofrem um efeito maior da variação das taxas, que costuma ser mais intensa. Há épocas em que um elemento predomina sobre o outro. “Não é uma pergunta com uma resposta pronta. Mas, via de regra, para uma mesma variação da taxa de juros, os títulos de inflação tendem a subir ou a cair mais, por conta do seu prazo mais longo”, afirma Ghani.

Devo sacar o dinheiro investido no Tesouro Direto?

Se a resposta à pergunta “preciso do dinheiro agora?” for não, o investidor não deve sacar os recursos. “Não mude de posicionamento, mantenha seu papel. Seu retorno está garantido até o vencimento, e uma hora as coisas vão normalizar. Não faça nada agora”, recomenda o economista.

Minha reserva de emergência está aplicada em títulos prefixados. Não devo resgatar? A melhor opção para a reserva de emergência é a LFT?

Na visão de Ghani, a reserva de emergência deve ser aplicada em títulos pós-fixados. Ao contrário dos prefixados e dos títulos de inflação, eles não garantem uma taxa já acertada desde o momento do investimento. Em vez disso, oferecem como rendimento a Selic.

Se a taxa básica de juros estiver em 10% ao ano, é o que vão pagar naquele período. Se cair para 5% anuais, é o que passarão a pagar dali por diante. Por causa desse mecanismo, eles não sofrem no preço o impacto da alta ou da queda dos juros.

“A reserva de emergência deve estar onde você tem uma rentabilidade sem muito risco de perda. É LFT, fundo DI, CDB pós-fixado com liquidez”, explica o economista. “Você só quer juros para remunerar e não deixar o dinheiro totalmente parado, para poder contar com ele a qualquer momento sem risco.” Se os valores foram aplicados em títulos prefixados, um resgate no momento atual possivelmente acarretará perdas.

A LFT rende mais que do que uma LCI (Letra de Crédito Imobiliário) que pague 100% do CDI?

Não, diz Ghani, já que as LCIs são isentas da cobrança de Imposto de Renda, o que não é o caso das LFTs. Uma equivalência entre os dois papéis exigiria que o investimento tributado pagasse em torno de 115% do CDI. O detalhe das LCIs é outro: liquidez. A LCI pode não ter liquidez diária como a LFT, além de ter uma carência mínima de resgate de três meses.

A Selic pode cair ainda mais?

Na visão de Ghani, a Selic pode sofrer novas reduções, sim. Embora algumas pessoas questionem o risco da volta da inflação, diante de juros tão baixos, o economista não enxerga esse cenário.

“Essa crise é de demanda e de oferta, pega as duas pontas. As pessoas não conseguem consumir porque não estão saindo de casa, e também não podem ir trabalhar por restrições impostas. É algo inédito, e muito difícil de abrir espaço para inflação”, explica.

Pode, sim, haver aumentos pontuais nos preços de alguns produtos por escassez – como álcool gel. Mas não uma situação generalizada. “Tem espaço para Selic cair mais até porque o motivo da queda agora não é controle inflacionário, e, sim, evitar uma crise no sistema financeiro”. Ghani afirma, resaltando que não espera a Selic abaixo de 3% ao ano.

Daqui a um ano, a Selic deve ter subido novamente?

Para Ghani, é difícil imaginar a taxa básica voltando a subir em um prazo de um ano. “Talvez em um horizonte um pouco mais longo, sim. Mas é precisa registrar uma recuperação maior antes disso. Talvez daqui a três ou quatro anos”.

O título Tesouro Selic ainda será uma boa opção com o novo corte previsto? Qual a melhor alternativa desse momento para investir em renda fixa?

Sim, principalmente para manter a reserva de emergência. O Tesouro Selic, diz Ghani, tem sido uma boa opção porque, diferentemente dos prefixados e papéis atrelados à inflação, não desvaloriza com a oscilação das taxas.

“Quem comprou Tesouro Selic no passado, ganhou juros de 14,25%, por exemplo, durante o período em que os juros estavam nesse patamar. Depois que a Selic caiu, passou a ganhar um pouco menos daquele momento em diante. É o que vai acontecer novamente agora com os cortes”, explica.

O importante a lembrar é que a remuneração total desse título, que é pós-fixado, é a média acumulada de todas as taxas desde a sua compra. “Mesmo com juros menores agora, vale a pena. Fica a lição: não dá para pensar só em remuneração, é preciso pensar também em risco e em volatilidade. O Tesouro Selic reduz a sensibilidade da carteira.”

Pensando em investimentos com prazos mais longos, Ghani reafirma que uma das melhores opções no momento são os títulos de inflação. Além de oferecerem taxas muito atrativas agora, eles protegem o dinheiro do risco de inflação no futuro de longo prazo. “Há pouco tempo, tínhamos saudade de ver taxas tão elevadas e um ganho tão fácil no Tesouro Direto.”

E os CDBs, valem a pena neste momento? Há risco de os bancos quebrarem?

Ghani diz que prefere títulos públicos aos CDBs prefixados, porque no Tesouro Direto é possível vender os papéis antes do vencimento se o investidor precisar ou se encontrar uma boa oportunidade de ganho devido à variação das taxas. “Já os CDBs pós-fixados podem ser interessantes, desde que paguem um belo percentual do CDI e o investidor puder esperar até o vencimento”, sugere o economista.

Alguns CDBs pós-fixados estão, de fato, oferecendo uma remuneração muito alta – em alguns casos, de até 180% do CDI. A dúvida é se os bancos emissores irão sobreviver à crise. Segundo Ghani, a tendência é de que o Banco Central e as autoridades monetárias no mundo inteiro injetem muito dinheiro no mercado nos próximos tempos, justamente para não haver um colapso financeiro. O principal, nesse caso, é verificar a liquidez do papel. “Muitas vezes, as operações com as melhores taxas não têm liquidez”, explica o economista.

Papéis privados, como debêntures e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), podem ser boas alternativas?

No geral, o principal a avaliar são as operações dos emissores dos papéis privados. É preciso estimar se há um risco real de quebra ou não. “Se forem empresas muito bem avaliadas, pode ser. Tem de ter rating AAA, tem de ser empresa sólida”, diz Ghani.

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