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Vacinação de crianças e adolescentes preocupa pais na Venezuela

Vacinação de crianças e adolescentes preocupa pais na Venezuela

Yuri Cortez / AFP – 9.11.2021

A chegada à Venezuela de 900 mil doses da Abdala, um protótipo de vacina criado em Cuba para combater a Covid-19 vem gerando polêmica. Com uma média de 840 novos casos da doença por dia, o governo de Nicolás Maduro tenta combater a expansão da doença aplicando imunizantes produzidos em países aliados: China, Rússia e Cuba.

No entanto, associações médicas e pais e responsáveis por crianças e adolescentes alertam contra o uso do que classificam ser um “ensaio de vacina”.

“Não estou de acordo que apliquem algo que sequer foi declarado oficialmente como vacina. Em breve levarei meu filho, que tem oito anos, para ser vacinado, mas exijo que seja ou a russa (Sputnik V) ou a chinesa (Sinopharm). Nada de Abdala”, explicou à reportagem do R7 uma venezuelana de 35 anos que preferiu não informar seu nome por medo a represálias.

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Ela e centenas de pais temem que seus filhos se tornem “cobaias” ao receber o imunizante cubano Abdala, que ainda não recebeu a aprovação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Há poucas semanas a Organização Panamericana da Saúde (Opas) pediu que o governo da ilha divulgue dados sobre a Abdala para comprovar se o medicamento é eficaz contra o novo coronavírus.

Volta às aulas

As aulas foram retomadas na Venezuela no início de outubro deste ano por determinação de Nicolás Maduro. Para isso, foi autorizada a vacinação de menores de idade em todo o país.

Após 19 meses distantes das salas de aula, os alunos tiveram que comprovar estar vacinados. No entanto, isso não evitou que em pelo menos 40 escolas, entre particulares e públicas, fossem registrados casos da doença – interrompendo assim as aulas nestas instituições de ensino.

Entre os medicamentos utilizados na imunização está a cubana Abdala.

“A Abdala chega à Venezuela para se unir a este esforço na busca de 70% de vacinados”, informou Maduro no início de outubro, mas sem especificar se os imunizantes foram doados ou comprados. Na ocasião, ele aproveitou para agradecer o presidente cubano Miguel Díaz-Canel.

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A vice-presidente Delcy Rodríguez exaltou o protótipo da vacina cubana ao explicar que “com as provas que fizemos na Venezuela com a aplicação da vacina Abdala devemos dizer que ela tem altíssima eficácia”. As primeiras doses do medicamento cubano chegaram à Venezuela em junho passado.

Embora assustados com a propagação da doença, que já causou mais de cinco mil mortes no país — de acordo com dados estatais —, associação de pais, ONGs e membros da área da saúde são contra o uso da Abdala.

A ONG Médicos Unidos por Venezuela manifestou pelas redes sociais que “não é possível aceitar que seja coloca em crianças e adolescentes esta candidata à vacina. Ela não foi autorizada pela entidade correspondente”.

Já a Academia Venezuelana de Ciências Físicas, Matemáticas e Naturais lançou um alerta sobre “não utilizar os candidatos à vacina Abdala e Soberana 02 (também criada em Cuba) para imunizar a população venezuelana contra a Covid-19, em especial crianças entre dois e onze anos”.

A doutora Maria Eugenia Landaeta, chefe do serviço de infectologia do Hospital Universitário de Caracas, explica que a Abdala “é um candidato à vacina porque não saíram os estudos da primeira e segunda fase (de prova), como aconteceu com as demais vacinas. Por isso não podemos chamá-la de vacina. Colocá-la massivamente em pessoas e sem que tenha sido aprovada pelos organismos reguladores é um risco porque não se sabe realmente qual é a eficácia e os efeitos colaterais que possa ter”.

Enquanto pais bradam que “nossos filhos não farão parte de grupos experimentais”, o governo chavista informou que até o final do ano deve chegar à Venezuela 16 milhões de doses do suposto medicamento cubano. Maduro também planeja produzir em larga escala esta que é chamada pelos críticos de “ensaio de vacina”.

O governo garante que até o momento cerca de 85% da população venezuelana já foi imunizada contra a Covid-19 com variados tipos de vacinas — a maioria com a chinesa Verocell/Sinopham. O país chegou a receber cerca de 5 milhões de doses da russa Sputinik V, mas uma interrupção no envio fez com que centenas de imunizados ficassem sem receber a segunda dose da vacina produzida pela Rússia.

Porém ONGs e profissionais da área médica afirmam que o número de imunizados não passa de 35%.

Rafael Oriuela é professor pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela. Ele explica que “até o momento há uma situação bastante irregular quanto aos anúncios da vacinação e que demonstrar não ser certas, Há poucos dias o governo disse que 70% da população foi vacinada com as duas doses. Sabemos que isso não é certo”.

Em junho deste ano foi dada a largada para a vacinação no país. Na ocasião os idosos foram priorizados. Mas houve muita confusão e aglomerações na frente dos centros de vacinação, o que transformou estes pontos em focos de contágio da Covid-19.

Rita Suárez passou mal e tomou apenas a 1ª dose

Rita Suárez passou mal e tomou apenas a 1ª dose

Elianah Jorge / R7

A aposentada Rita Suárez preferiu interromper a imunização contra o coronavírus. “Tomei a primeira dose e me senti tão mal, que preferi não tomar a segunda. Prefiro ficar assim mesmo”.

Para acelerar a imunização desde 8 de novembro, poucas semanas antes das eleições, graças a um acordo feito pelo Ministério da Saúde da Venezuela e pela Câmara Venezuelana de Farmácia duas grandes redes de farmácias, com estabelecimentos em alguns estados do país, começaram a aplicar as vacinas anti-Covid para acelerar o processo de imunização total da população. O governo de Maduro estima que até dezembro deste ano 95% da população esteja vacinada.

Flexibilização para eleição

Em outubro, a quarentena foi flexibilizada em todo o país, uma medida que vale até outubro. Críticos ao governo alegam que o governo de Maduro tomou esta decisão para ajudar a mobilizar a crítica economia venezuelana, cuja inflação acumulada de 2021 gira em torno de 1.572% de acordo com a Agência Reuters.

Outro motivo para o fim temporário da quarentena seria para estimular a população sair para eleger, no próximo domingo, os 23 governadores e 335 prefeitos que tomarão posse em janeiro de 2022.

Nos últimos dias a média diária gira em torno de 840 novos casos da Covid-19. Mas durante a segunda onda, registrada no país entre agosto e setembro deste ano, o governo anunciava cerca de 1.400 novos pacientes por dia.

ONGs afirmam que o real número de pacientes da Covid não condiz com os números informados pelo governo.

Antes do período eleitoral, foi estabelecido pelo governo que uma semana seria de quarentena radical (embora poucos obedecessem) e na outra, flexível.

Stéphany critica a quarentena na Venezuela

Stéphany critica a quarentena na Venezuela

Elianah Jorge / R7

“Não entendo o motivo desse tipo de restrição. Parece que em uma semana há vírus circulando, e na outra não. Prefiro agora que a quarentena foi suspensa, assim posso voltar à vida normal”, declarou Stéphany Rodríguez, uma jovem de 21 anos enquanto se dispunha a entrar no abarrotado metrô da capital Caracas.

Já a administradora Isabel Pérez, de 62 anos, descobriu em julho deste ano que ela, a mãe de 95 anos e a irmã estavam com Covid-19. Usando o plano de saúde da empresa onde trabalha, ela chegou a ficar internada em uma clínica particular.

“Após um dia lá disseram que a caução de 10 mil dólares do seguro médico já havia acabado eu deveria desocupar o leito”. Sem alternativa ela acabou indo para o Poliedro de Caracas, uma espécie de Maracanãzinho transformado provisoriamente pelo governo de Maduro para tratar pacientes de coronavírus.

Isabel perdeu a mãe para a Covid-19

Isabel perdeu a mãe para a Covid-19

Elianah Jorge / R7

“Lá dentro todos os médicos eram cubanos”, contou a administradora. Ela ficou um total de 19 dias internada. Ela e a irmã conseguiram se salvar, já a mãe não teve a mesma sorte e acabou falecendo.

Seguidora fiel de Nicolás Maduro, Isabel tomou as duas doses da chinesa Verocell. Mesmo desconhecendo que Abdala não foi aprovada pela OMS, ela alega que as pessoas contrárias ao imunizante cubano “são ignorantes e porque também há uma guerra contra o governo”.

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